"A pressão terrível do império anglo-americano sobre a língua nacional: um emudecimento violento que fere de morte a soberania do nosso povo na base da pirâmide social."Como aponta Pierre Bourdieu em A economia das trocas linguísticas, o sistema educacional frequentemente opera uma "violência simbólica", convertendo diferenças econômicas em diferenças de mérito acadêmico. A universidade brasileira pressupõe um "capital cultural herdado" que o próprio Estado, através da escola pública precarizada, recusa-se a fornecer. O resultado é um silenciamento dramático: uma significativa quantidade de candidatos e candidatas às vagas de mestrado e doutorado está desistindo de prosseguir na trilha do conhecimento simplesmente porque não domina o inglês, o francês ou o espanhol.
Do Diretório de Pombal ao Decreto de D. João VI: As Raízes da Opressão
Para compreender a gravidade desse cenário, é preciso resgatar as raíces históricas da violência linguística planejada pelo Estado. No século XVIII, o português não era a língua mais falada no território nacional; populações indígenas, africanas escravizadas e colonos comunicavam-se cotidianamente através da Língua Geral (baseada no Tupi, como o Nheengatu). Em 1757, o Marquês de Pombal assinou o Diretório dos Índios, cujo parágrafo 6º proibiu oficialmente o uso e o ensino de qualquer língua que não fosse o português europeu. O objetivo era puramente geopolítico e de controle fiscal.
O colonialismo linguístico ligado ao inglês iniciou sua fase institucional logo depois, em 22 de junho de 1809, quando D. João VI assinou o decreto criando as primeiras cadeiras de ensino de inglês no país. O motivo era atender aos interesses da elite mercantil britânica após a abertura dos portos. Esse processo evoluiu para o que Robert Phillipson conceitua em Linguistic Imperialism como a imposição estruturada de uma língua estrangeira para garantir a subordinação de uma periferia global aos interesses das potências centrais, transformando a língua do colonizador na única via legítima de validação intelectual.Sécules depois, em 15 de novembro de 1889, o mimetismo colonial atingiu seu ápice quando a primeira bandeira da República provisória (desenhada pelo republicano Lopes Trovão e hasteada por Ruy Barbosa) foi moldada como uma cópia literal, em verde e amarelo, da bandeira dos Estados Unidos. Embora tenha sido vetada quatro dias depois pelo Marechal Deodoro da Fonseca (que preferiu resgatar o losango e o fundo verde imperial, carimbando-o com o lema positivista francês "Ordem e Progresso"), o impacto dessa cópia norte-americana ainda gera espanto e alimenta debates instigantes sobre a nossa identidade visual na cultura digital, como nesta discussão aberta sobre a primeira bandeira da República no Reddit. Mesmo de curta duração, esse espírito de decalque estético de Washington já havia sido gestado no ano anterior por Júlio Ribeiro (filólogo e filho de estadunidense), cuja proposta geométrica idêntica foi acolhida integralmente como a bandeira do estado de São Paulo.
Projetada pelo jornalista Júlio Ribeiro (que era, sintomaticamente, filho de um cidadão estadunidense, conforme aponta a sua biografia oficial na Academia Brasileira de Letras) a bandeira paulista trouxe as listras horizontais e o cantão militar de Washington para o coração da província que se tornaria a "locomotiva econômica" do país. São Paulo liderou a importação do modelo corporativo e acadêmico norte-americano, empurrando para o restante da nação a lógica de que o progresso fala inglês.
O Confronto Surdo de Poder e o Mito do "English-Only"A intensificação definitiva desse processo ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, impulsionada pela transição da hegemonia britânica para a norte-americana. Configurou-se um confronto surdo de poder colonizador: o inglês de Oxford permaneceu em exames tradicionais como o ápice do fetiche elitista, enquanto o inglês dos Estados Unidos engoliu o cotidiano através do cinema, do consumo e da tecnologia.
A hipocrisia desse imperialismo se revela quando olhamos para as próprias fronteiras do colonizador contemporâneo. Enquanto a universidade brasileira exige docilmente o inglês em nome de uma suposta "globalização", os Estados Unidos historicamente sufocam a diversidade linguística em seu próprio território por meio do movimento English-only. Exemplos disso vão desde a brutal Babel Proclamation em Iowa (1918), que baniu por lei o uso de línguas estrangeiras até em ligações telefônicas de imigrantes, até as modernas legislações que cortam verbas públicas para o bilinguismo.
Como explicam os teóricos da decolonialidade, como Aníbal Quijano, a "colonialidade do saber" sobrevive à independência política. A academia brasileira internalizou a ideia de que o conhecimento produzido em português tem menos valor, exigindo que seus próprios cidadãos passem por um crivo estrangeiro para serem validados internamente.
Cosmopolitismo de Fachada X Realidade das Ex-ColôniasNo Brasil, país massivamente monolíngue, a realidade é o oposto. A febre audiovisual de traduzir anúncios de metrôs e ônibus para o inglês nas capitais serve apenas como um "cosmopolitismo de fachada" para a elite se sentir em Nova York enquanto se desloca por cidades repletas de desigualdade. O Estado gasta energia institucional para que a voz do alto-falante reproduza perfeitamente o sotaque anglo-americano, ignorando que apenas 1% da população brasileira fala inglês fluentemente.
Preconceito Linguístico e a Dupla Violência
Trata-se de uma dupla violência linguística contra a classe assalariada, operada por meio de um teatro pedagógico estatal. Na base da pirâmide, o sistema educacional público — municipal e estadual — insere o inglês na grade curricular apenas para cumprir tabela burocrática, entregando uma didática esvaziada (o eterno "verbo to be") e precarizada. Essa constatação serve como um escudo teórico contra a demagogia liberal que tenta contrapor este ensaio, alegando de forma cínica que o Estado já proporciona essa matéria às crianças pobres e que o aprendizado não seria um privilégio das classes médias e ricas. Essa falácia ignora deliberadamente a barreira material e fonética: exige-se do alunato da periferia o domínio de um idioma de tronco anglo-saxônico, com fonemas e estruturas radicalmente distantes do português de tronco latino, em salas de aula sucateadas e sem laboratórios de áudio, enquanto o próprio sistema falha em fornecer suporte para que esses estudantes se apropriem com segurança da norma padrão de sua língua nativa.
Como denuncia Marcos Bagno em Preconceito linguístico: o que é, como se faz, a própria norma culta do português já é utilizada pela elite brasileira como um "muro" para manter privilégios, criminalizando as gírias e os falares locais legítimos que emergem das comunidades. Posteriormente, quando esse estudante tenta alcançar os cursos superiores, a régua muda abruptamente para o inglês. Para a minoria rica, esse pedágio é irrelevante: suas crianças frequentam colégios privados bilíngues e contam com suporte financeiro familiar para intercâmbios internacionais em Boston ou Londres exatamente com o propósito de blindagem social. Para as classes populares, resta o risco iminente da eliminação por falta de condições materiais básicas.
A justificativa hegemônica da academia de que a literatura científica global se encontra em inglês ignora que o Estado deveria financiar e estruturar um corpo público de tradutores juramentados junto aos órgãos de educação e editoras universitárias. Isso democratizaria o acesso aos acervos globais e geraria postos de trabalho técnico, em vez de transferir o custo financeiro e intelectual da tradução para as costas do indivíduo vulnerável. A barreira do idioma no ensino superior precisa ser revista por lei, tornando-o opcional exceto onde estritamente necessário, como na diplomacia, para que a base da pirâmide possa, finalmente, exercer o direito soberano de produzir ciência em sua própria língua nacional.
📚 Referências Bibliográficas
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 15. ed. São Paulo: Loyola, 1999.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas linguísticas. São Paulo: Edusp, 1996.
PHILLIPSON, Robert. Linguistic Imperialism. Oxford: Oxford University Press, 1992.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
RIBEIRO, Júlio. A Grammatica Portugueza. São Paulo: Typographia de Jorge Seckler, 1881.
🖋️ Sobre o Autor
Ubirajara Rodrigues da Silva é historiador pelas Faculdades Integradas Simonsen, artista plástico pelo Senac e morador de comunidade, território onde desde a infância atuou artística, cultural e politicamente. É pós-graduando em Divulgação e Popularização da Ciência pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), especialista (lato sensu) em Ciência, Arte e Cultura na Saúde pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), especialista (lato sensu) em História do Brasil Pós-30 pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e possui especialização (lato sensu) e extensão em Cidades, Políticas Urbanas e Movimentos Sociais pelo IPPUR/UFRJ.






