quinta-feira, 28 de setembro de 2017

NOITE DE SÃO SEBASTIÃO

Massacre de São Bartolomeu, de François Dubois
Na década de setenta, eu bem jovenzinho, cheguei a imaginar imagens de tanques apontando para as favelas de modo ficcional, no sentido político de tentar abafar uma ação revolucionária dos pobres favelados contra os ricos donos do poder financeiro, econômico e político deste ainda obscuro país. Mas o que se vê é a soldadeira nada solidária composta na sua maioria por filhos do povo pilhado, filhos que sabem perfeitamente que estão traindo suas próprias raízes em nome de uma ética militarista desumana que colabora para preservar a arrogância das classes dominantes. Muitos desses soldados são negros sabedores do erro que estão cometendo em nome de uma pátria desamada, desarmada, explorada pelos desalmados. Quando esses jovens tomarem consciência de preservação do que é justo, deixarão suas vagas de soldados para a filharada dos ricos opressores. O que acontece na Rocinha, no Alemão, no Jacarezinho, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, no Maranhão, em Recife, São Paulo, Amazonas, enfim, no Brasil inteiro, reflete toda uma realidade de desgovernos que demanda mais de cinco séculos. Digo mais de cinco séculos devido a herança de um estado português falido, deixado aqui gerando todo um processo antidesenvolvimentista que acaba proporcionando tudo de mal, dando desrespeitosos pontapés nas nossas portas em nome de uma lei pífia feita apenas para o deleite dos brancos ricos donos deste gigante adormecido Brasil. Mas acredito que uma verdadeira Revolução Popular está mais próximo do que nunca, pois insatisfações, indignações, abusos em nome de leis de exceções, tudo isso um dia transborda em revolta, numa espécie de Noite de São Bartolomeu, como se sucedeu na França do final do século XVI, evidentemente guardando as proporções históricas, no nosso caso seria tipo "Noite de São Sebastião".

O EXÉRCITO SERVE PARA TUDO, MENOS PARA PROTEGER QUEM VIVE NA ROCINHA


GEOVANI MARTINS, 26, escritor e morador da Rocinha

Quando vi os tanques de guerra entrando no morro, não pude deixar de pensar no verão, 40º C na sombra, a gente sem água por mais de uma semana, tendo muitas vezes que chegar do trabalho e procurar forças pra buscar água no poço ou numa fonte pra tomar banho, fazer comida, lavar a louça. Nos dias sem luz, aquele calor, aquele suor, o ventilador parado, o medo de estragar a comida na geladeira. Naquele menino de dez anos que começa a flertar com o tráfico enquanto a mãe está no trabalho. Naquele projeto de futebol, surfe, judô, teatro, música, entre tantos outros, interrompidos pela falta de recursos. Fiquei pensando. Nessas horas, onde é que esteve o Governo do Estado do Rio de Janeiro?
Uma coisa é certa, já estamos acostumados a nos virar por conta própria. A arquitetura do morro, desde os becos, vielas e escadas, até as casas, igrejas, mercados, é a maior prova disso. Aquele vizinho que te empresta uma tomada pra ligar a geladeira e preservar seus alimentos, aquela vizinha que te avisa que está caindo água e faz questão de lembrar que não se pode esquecer de encher os baldes; mostram que apesar de tudo, não estamos sozinhos.
Os tanques de guerra subindo, os caveirões passando, continuei pensando: o que realmente motivou essa ação militar tão repentina? Vieram várias respostas na cabeça: o fato da Rocinha estar no caminho entre Gávea e São Conrado, entre São Conrado e Barra, o Rock in Rio, os alunos da Escola Americana, do Teresiano, da Escola Parque sem aula, a PUC fechada, o circo televisivo batizado pelos próprios jornalistas de cobertura completa, enfim, muitas coisas, mas em momento algum, cheguei a pensar que pudesse ser em defesa do morador.
Até porque, qualquer um com um pouco de boa vontade, pode perceber que uma ação militar convocada assim, de uma hora pra outra, sem nenhuma estratégia desenvolvida, e que usa como braço armado soldados que não conhecem a geografia do lugar e tampouco a dimensão do conflito em que estão se metendo, pode servir pra tudo, menos pra proteger o morador.
Nessas horas, é impossível não lembrar da UPP ocupando o morro. No BOPE metendo o pé na nossa porta, revirando tudo, perguntando onde é que arrumamos dinheiro pra comprar nossas coisas, exigindo nota fiscal. Tudo isso por nada, já que a quantidade de armas e drogas apreendidas nesse período foi baixa, e não demorou muito pro tráfico recuperar a mesma força de antes.
Esse filme está se repetindo agora mesmo. Com o menino de treze anos recém chegado do nordeste, que teve a casa invadida por policiais logo depois da mãe sair pro trabalho, e não sabendo responder a tantas perguntas acabou com o braço quebrado. Com os muitos moradores que enviaram fotos para a página Rocinha em Foco, denunciando a ação dos policiais, mostrando suas portas arrombadas, suas casas todas reviradas.
E em meio a tudo isso, ainda somos obrigados a ver, no espaço virtual que usamos pra nos atualizar e de certa forma, cuidarmos uns dos outros, pessoas (a grande maioria utilizando um perfil face) xingando esses moradores, dizendo que querem denunciar os policiais militares mas não querem denunciar os traficantes. Sim, chegamos ao ponto em que grande parte da população acha super natural comparar a segurança pública com o crime organizado. Ninguém que aponta o dedo tem ideia de como dói ter os direitos violados, passar os dias ouvindo a bala cantar, carregar essa sensação de impotência, e ainda por cima, sair como culpado.
Já que comecei a falar dos comentários que recebemos de fora, não posso deixar passar batido a cobertura ostensiva da televisão, que conseguiu passar um dia inteiro sem nos dar nenhuma informação relevante e ainda faz questão de lembrar a todo momento o quanto estavam sofrendo os cariocas que precisavam passar por aquele pedaço da cidade. O nosso pedaço de cidade.
Nesse mesmo dia em que os tanques de guerra entraram na Rocinha, vi na Internet uma matéria de um jornal português sobre a Cia Marginal, grupo de teatro formado no Complexo da Maré, onde destacavam a seguinte frase: A violência está no mundo. Não nas favelas. Nada pode ser mais simples: é impossível separar as favelas do mundo, esquecer que elas fazem parte de uma cidade, estado, país, é impossível ignorar seus contextos e tudo o que aconteceu até chegar nesse momento. No entanto, lembrando de tudo o que disse o governador, o chefe de segurança pública, os jornalistas na televisão, os faces com fotos de militares, concluí que é exatamente isso o que estão tentando fazer desde sempre. Separar a favela do mundo."

quinta-feira, 30 de março de 2017

ECONOMIA SOLIDÁRIA, A ECONOMIA DA ESPERANÇA

Texto de Dayse Valença, Assessora do Núcleo de Desenvolvimento Local Comunitário do Campo e Irene Rosseto, integrante da Asplande - Assessoria e Planejamento para o Desenvolvimento


FALAR DE ECONOMIA SOLIDÁRIA É FALAR DE RESPEITO À VIDA NO PLANETA
Respeitar a vida pressupõe que na nossa nave mãe, o planeta terra, não pode haver passageiros de primeira, segunda, terceira, quarta classe. Porque é exatamente nessa divisão que está a gênese das guerras, da destruição do meio ambiente, da exclusão social. O grande desafio da Economia Solidária é desconstruir essa lógica perversa.

A Economia Solidária privilegia a valorização da escala humana, a satisfação e o crescimento dos indivíduos à simples busca de rendimentos econômicos. Portanto,
é a economia da inclusão social, da paz entre os seres humanos. É a economia da esperança, no sentido de que é possível recriar uma nova sociedade que tenha como pilares a valorização e o respeito da diversidade humana no seus diversos aspectos, a cultura da inclusão social e econômica, a cultura da paz como prática cotidiana da sociedade.
Economia que cuida do planeta, preservando a biodiversidade, o meio ambiente, única forma de tornar possível a vida na terra, promovendo a qualidade de vida no presente e deixando como legado um planeta saudável para as futuras gerações.
O movimento denominado Economia Solidária começa a se desenvolver e ter visibilidade nos anos 90, década que marca a consolidação de uma nova fase do sistema capitalista, o neoliberalismo. É nesse período também que o mundo ainda está atordoado assistindo aos últimos suspiros do socialismo real.
A Economia Solidária nasce em oposição aos estragos do neoliberalismo - Exclusão, desemprego, miséria - e dá vida a um sistema de produção, distribuição e crédito alternativo ao capitalismo.
Podemos considerar a Economia Solidária como uma busca para um novo socialismo, centrado na pessoa humana e não na acumulação de capital e lucro. Se
baseia na reciprocidade, na igualdade e no respeito entre as pessoas e na organização de empreendimentos autogestionário, democrático e coletivo.
Antes de continuarmos a descrever o movimento de Economia Solidária e suas implicações práticas no processo de organização e melhoria de vida de milhões de excluídos no mundo todo, trataremos de entender um pouco as origens do neoliberalismo, essa nova fase do capitalismo que está tão presente na vida de todos nós.

NEOLIBERALISMO, UM INSTRUMENTO A SERVIÇO DA GLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA E A EXCLUSÃO SOCIAL 

O neoliberalismo é um fenômeno político e econômico que nasce no final dos anos 70, e já na década dos 90 se impõe como ideologia dominante no mundo todo. Tem como maior referência os indivíduos, prega assim o individualismo seja na esfera política econômica ou social.
Inspirando-se na teoria liberal dos séculos XVIII e XIX, e principalmente no pensamento de um dos seus maiores teóricos, Adam Smith, o neoliberalismo defende o “livre mercado” e a atuação da “mão invisível” como melhor forma de regular as atividades econômicas. Prega a redução do papel do estado a funções “mínimas”, deixando para a sociedade civil o papel de redução da desigualdade.
A visão de mundo do neoliberalismo também é reforçada pela teoria evolucionista de Darwin, que, em síntese, prega que quem sobrevive é o mais forte, aquele que se adapta melhor às mudanças do ambiente. Com isso, torna natural e legítima a exclusão de dois terços da população mundial. Porque, nessa visão, essas pessoas não foram competentes o suficiente para estarem incluídas nas universidades, no mercado de trabalho, nas especulações do mercado financeiro, na orgia do consumo descartável que destrói os recursos naturais e, conseqüentemente, o meio ambiente.

ECONOMIA SOLIDÁRIA: UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL.

Como já descrevemos, falar de Economia Solidária é falar de valores éticos baseados na cultura da cooperação, da solidariedade, do respeito e preservação ambiental em que mulheres e homens juntos se mobilizam e trabalham na construção de um mundo justo.
A Economia Solidária assume formas multíplices, encontramos empreendimentos familiares ou comunitários, formais e informais, pequenas empresas ou cooperativas populares, atividades na área rural e industrial, nos serviços, no crédito e na poupança… Mas o importante é que todas elas são fundadas na equidade, na participação autogestionária e na democracia.
A Economia Solidária vem se desenvolvendo na prática através da organização de:

Redes 
São espaços democráticos que entrelaçam pessoas ou entidades em torno de valores e objetivos comuns. Do ponto de vista organizacional, a principal característica da rede é a não existência de um centro de poder ou de uma hierarquia nas relações. Todos os nós da rede representam um centro de potência/poder/decisão. As informações circulam de forma dinâmica, transparente e são emitidas de vários pontos.
Essa é a essência e a beleza da organização em rede que permite o desabrochar de teias de talentos criativos, ampliando, assim, as chances de atingir suas metas e seus objetivos.
Dependo do tipo de rede, podem surgir para promover entre seus membros: intercâmbios e trocas de experiências, socialização de informações, capacitação gerencial, qualificação e aprimoramento profissional, compra de matéria-prima conjunta, divulgação e venda conjunta, troca de produtos e serviços.
No Rio de Janeiro, podemos citar vários tipos de redes que já estão organizadas há anos como a Rede Cooperativa de Mulheres Empreendedoras, a Rede de Difusão do Cooperativismo Popular, a Rede de Centros de Desenvolvimento Local Solidário, o Fórum de Cooperativismo Popular, a Rede Ecológica.

Cooperativas Populares
O cooperativismo popular é um movimento que conta com a participação de distintos grupos da sociedade civil organizada e se expressa através de redes, associações, cooperativas, que se reúnem em torno de uma proposta comum. São pessoas que têm como objetivo melhorar a qualidade de vida da comunidade onde vivem, preservar o meio ambiente, promover a cultura local, propor políticas públicas em benefício da comunidade, trabalhar com medicina alternativa, organizar empresas com vistas a potencializar a criatividade de seus cooperados e melhorar seus rendimentos, entre outros.
Apesar da diversidade das experiências, todas elas buscam a construção de uma sociedade justa. Esse movimento vem contribuindo de forma concreta para que as pessoas resgatem sua capacidade de trabalhar coletivamente, com confiança, respeito mútuo, determinação e solidariedade .
Nas cooperativas populares, o cooperado é o protagonista do seu trabalho, ele é um ser autônomo que usa de forma criativa seus conhecimentos e habilidade em prol do seu autodesenvolvimento e o da cooperativa como um todo.
Exemplos de cooperativas populares aqui, no Rio, são os da Corte&Arte e Pão&Vida no morro do Cantagalo; a Rede de Centrais de Serviços – RCS, que reúne trabalhadores de vários bairros da cidade do Rio de Janeiro e São Gonçalo; a Cooptias, em Santa Cruz; a AmaKaf, em Bangu; em Olinda, Pernambuco, temos há 17 anos a pioneira experiência da Cooperativa das Lavadeiras, com uma linda história de luta.

Consumo Crítico e Comércio Justo
O movimento de comércio justo e consumo crítico surgiu há mais de 30 anos, na Europa, com a finalidade de mobilizar a população contra o jogo comercial do ganha-perde entre os países ricos e os países pobres. Nesse jogo, os ricos sempre ganham e os pobres perdem.
As pessoas, quando vão fazer compras, escolhem os produtos não só na base da relação preço-qualidade, mas começam a usar outros critérios como respeito ao meio-ambiente, cuidado com a segurança do trabalhador, a não utilização de trabalho infantil ou trabalho escravo.
O Consumidor crítico e solidário está atento para não adquirir produtos e serviços de empresas que produzem armas. Os consumidores começam, assim, a ter uma postura crítica e responsável quando estão comprando um produto ou serviço.
Esse movimento começou a denunciar empresas que exploravam os recursos naturais dos países pobres, a mão-de-obra barata de mulheres e homens e o trabalho infantil. A partir de então, o conceito de comércio justo vem sendo construído com o objetivo de criar uma nova abordagem nas relações comerciais.
Nessa abordagem, as relações entre quem produz e quem consome se pautam pelos valores da justiça social, solidariedade e preservação do meio ambiente. A proposta é reverter o jogo do ganha-perde para o do ganha-ganha.
Os produtores recebem um preço melhor quando se reduzem ao máximo as etapas na cadeia de distribuição. Dependendo do tipo de parceria estabelecida entre produtores e consumidores, uma parte do valor do produto é pago antecipadamente para ajudar a financiar a produção.
Para tornar o sonho em realidade, foram sendo criadas centrais de importação e lojas em países como Holanda, França, Bélgica, Itália, Suécia, Dinamarca, com o objetivo de comercializar café, açúcar orgânico da América Latina, artesanato de povos africanos, produzidos por associações e cooperativas. À medida que o movimento foi crescendo, cidadãos de outros países foram adotando a idéia, novas centrais de importação e lojas foram sendo criadas e novos produtos foram incorporados.
Como já foi mencionando, além de comercializar produtos com o selo que garante a origem ética e solidária do produto, esse movimento vem desenvolvendo ao longo de suas caminhadas ações que visam a:
- Estimular a agricultura ecológica e a preservação ambiental, através da criação de linhas de financiamento e cursos de capacitação e aprimoramento profissional, com parte das receitas arrecadadas com as vendas.
- Construir relações de longo prazo entre quem produz e quem compra. O produto com selo de comércio justo, além de satisfazer as necessidades e desejos de uso do consumidor, garante que o mesmo tem qualidade, foi produzido sem exploração de mão-de-obra e respeitando o meio ambiente.
- Difusão do produto com valor social agregado. A proposta do comércio justo tem sido um caminho concreto para superar a ações de cunho filantrópico e paternalista, que não facilita a transformação dos excluídos em incluídos. Significa dizer que quando compro um produto com o selo de comércio justo estou contribuindo na construção de uma sociedade justa e igualitária.
- Realização de campanhas e eventos como palestras e seminários, com o objetivo de ampliar a rede de consumidores éticos, solidários e vigilantes. Um exemplo é o da NIKE: quando foi comprovado que a NIKE estava explorando trabalhadores asiáticos, sobretudo crianças, as redes de comércio justo em nível mundial fizeram uma campanha para boicotar a empresa. A NIKE teve de se retratar perante o público e até hoje, apesar das campanhas que visam a posicionar a empresa como patrocinadora de esportes e vida saudável, levará ainda muito tempo para apagar a mancha que ficou na sua marca.
Aqui, no Brasil, inúmeras são as iniciativas que visam a promover o comércio justo e o consumo crítico. No Rio de Janeiro, por exemplo, além da organização de feiras periódicas de produtores e redes de consumidores, temos o exemplo da Unacoop – União das Associações e Cooperativas de Pequenos Produtores Rurais do Estado do Rio de Janeiro e da Rede Ecológica.
A Unacoop, nos últimos anos, vem aprofundando o debate entre seus associados, bem como estimulando e apoiando os agricultores familiares a promover a reconversão da agricultura química para a agricultura orgânica.

Finanças Solidárias
Já vimos experiências de produção, comercialização e consumo solidário, mas na Economia Solidária existem também atividades de crédito, poupança e financiamento, tal como bancos cooperativos, redes de finanças solidárias, entre outros.
É cada vez maior o número de pessoas e grupos cooperativos que querem investir seus recursos financeiros, suas poupanças em instituições financeiras solidárias. Elas não querem ver seu dinheiro a serviço dos cassinos das especulações financeiras, que só promovem o aprofundamento da exclusão social. Querem dar um sentido social ao seu dinheiro. Possibilitando, assim, a criação de linhas de investimento que promovem o crédito para financiar a produção, novas iniciativas empreendedoras, construção de casa, todos voltados para a criação de uma sociedade justa. São pessoas que não querem investir seu dinheiro em bancos que financiam guerras ou cobram juros altíssimos para obter lucros estratosféricos. São empreendimentos que não podem pagar as taxas de juros de mercado para realizar os investimentos necessários e, então, escolhem formas alternativas e não predatórias de crédito para poupar e para receber financiamentos.
No Rio, temos a recém-criada Casa da Confiança, formada por empreendimentos que fazem parte do Fórum de Cooperativismo Popular. No Ceará, temos a experiência do Banco Palmas.
Para finalizar, não podemos deixar de citar outras formas importantíssimas da prática da economia solidária, dentre elas os movimentos ambientalistas como os de preservação da Amazônia, como os seringueiros do Pará; agroecologia, que busca resgatar os princípios da agricultura que está a serviço da vida, da biodiversidade e da preservação ambiental e não do lucro acima de tudo, como querem multinacionais como a Monsanto; movimentos de difusão de softwares livres, que tem como objetivo a inclusão digital dos povos e a quebra do monopólio milionário de empresas como a Microsoft.
Vimos como na Economia Solidária existem muitas práticas, muitas experiências diferentes e interessantes e todas elas procuram construir uma nova ordem social e econômica, onde o ser humano seja valorizado; o trabalho, e não o capital, seja prioritário, e as relações entre as pessoas sejam fundadas no respeito, na democracia, no diálogo, e não no exercício de um poder predatório, egoísta e destrutivo.

domingo, 26 de março de 2017

FAVELA: PLANTA PODEROSA QUE PODE ALIMENTAR O BRASIL

A matéria abaixo escrevi em outubro de 1983 para o Jornal Favelão, do qual fiz parte. Esse jornal era feito por jovens de favelas com apoio da Pastoral de Favelas da Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Em 20/12/07 ao participar da conferência sobre o Eco museu Manguinhos com os palestrantes o museólogo e doutor em Ciências Sociais, Mario Chagas, do Departamento de Museus doInstituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DEMU/IPHAN), e Felipe Eugênio, da RedeCCAP, no Salão Internacional, ENSP- Escola Nacional de Saúde Pública, FundaçãoOsvaldo Cruz, lembrei-me dessa matéria quando se tocou no assunto a respeito de muitas pessoas de favelas atualmente ter vergonha de falar a palavra “comunidade” devido esta lembrar “favela”. Dentro desse clima, a matéria foi escrita a fim de fortalecer a idéia de que a palavra se valoriza ou desvaloriza dependendo do uso que se faz dela. Maioria dos favelados recebedores do Favelão evitava abri-lo em público porque sentiam vergonha deste nome. Naquela época, querendo fugir deste estigma uma corrente de opinião achava melhor se substituir o termo “favela” por “comunidade”, e, outra achava “favela” uma palavra bonita e forte. Admitia que devia, sim era o espírito de “comunidade” crescer nas favelas e mesmo nos bairros, independente de ser Copacabana, Barra da Tijuca ou Subúrbio, Baixada. As ações eram que deveriam mudar pela valorização do local... Hoje, o que fizeram com as palavras? Lembrei para os presentes que a situação atual é horripilante. Deste modo se inibe a criação de vínculos de identificação com o local, etc.
Leiamos a matéria 

FAVELA PODE ALIMENTAR O BRASIL

As populações das Comunidades de Favelas sentem vergonha (?) ao serem chamadas de "FAVELADAS". No entanto as palavras são inventos sujeitos a mudar de significados com o passar dos tempos, de acordo com o nosso avanço em relação às coisas que fazem parte de nossa vida e que são importantes ao nosso bem estar (conscientização).
De estalo a palavra FAVELA nos faz imaginar imagens miseráveis de barracos encardidos, casas pálidas, caminhos tortuosos, lugar de gente desvalorizada, onde brancos e negros embriagam-se nas biroscas cantando samba, drogam-se a céu aberto; faz-nos imaginar gente comendo porcarias, crianças quase nuas de pés descalços nas valas podres. Entretanto muita gente não sabe que FAVELA também é uma planta que pega em qualquer terreno, dos alagados à seca do sertão. Nada a destrói, nem geada, pragas ou insetos.
A favela tornou-se conhecida graças ao cientista brasileiro, Luiz C. Pimentel, que, há 50 anos, quando fazia um passeio de estudos científico nas regiões vizinhas a Uauá e da antiga região de Canudos (berço das Favelas no Brasil). Nesse passeio, o que o levou a conhecer a FAVELA e a estudá-la com amor durante todo esse tempo pelo mundo afora, foi o fato de ter avistado curioso, um caboclo mascando amêndoas dessa planta que é capaz de produzir óleo comestível e combustível. Cnidoscolus phyllacanthus é o seu nome científico.
Temos no Brasil meio milhão de quilômetros quadrados com a FAVELA, principalmente na "área abandonada das secas".
Por exemplo: oliveira gera azeite e produz 14% de óleo, ainda dá trabalho, grana e conforto para alguns países. A FAVELA produz 68,8% de óleo. Nos seus restos ainda se pode encontrar muitas vitaminas formadoras de 77% de proteínas, a maior fonte já conhecida no mundo. Milagrosa: Ela sozinha poderia dá alimento, inteligência, saúde, trabalho e produção ao país inteiro!
Por outro lado o FAVELADO ou FLAGELADO, ao invés da vergonha, deveria pensar muito mais sobre o seu verdadeiro valor de cidadão, habitante vivo, valor de gente que faz história também numa sociedade tonta, falida e injusta. VERGONHA DE QUE? NÃO GOSTAMOS DE POLÍTICA? MANDAMOS CONSTRUIR PRISÕES CHEIAS DE POBRES? VAI CONTINUAR O DESEMPREGO, O PÉSSIMO SALÁRIO? SERÁ QUE QUEREMOS MORRER DE FOME? BRASIL, BRASIL, ACORDA BRASIL! 
Leia mais no blog
FATOS E FOTOS DA CAATINGA em pesquisas de Nilton de Brito Cavalcanti , de Petrolina, Pernambuco.


Ubirajara Rodrigues

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O CASTELO E A MANSÃO. Conto social de Ubirajara Rodrigues. Homenagem à Nísia Trindade, primeira mulher a presidir a Fundação Oswaldo Cruz.
















A fábula O CASTELO E A MANSÃO (conversa sobre o que agora recente se passou) é de inspiração nos aspectos social/histórico/ambiental, protagonizada pelas personagens Cruz (Castelo) e Regina (Mansão) numa ambientação atemporal, em que, personagens tais quais Terra, Umidade, Pedra, Manguezal, dentre outros, colaboram para proporcionar uma alegoria passível de conduzir o expectador atento para refletir sobre a razão de ser da sociedade organizada em função do seu próprio bem-estar.
Os protagonistas Cruz e Regina são personificações do Pavilhão Mourisco da Fiocruz (em Manguinhos) e da Mansão Regina Bilac Pinto (no Morro Azul, Flamengo).  Ambos estão marcados pelas suas atuações humanitárias e comprometimento social.
Com performance da contadora de história Grace Ellen, era intenção lançar este conto na solenidade de posse da Dra. Nísia Trindade Lima na presidência da Fundação Oswaldo Cruz, mas não foi possível, então para não deixar passar em branco publico aqui em UBIRAJARANDO.


O Castelo é apelidado de Cruz, e, o nome da Mansão é Regina, dois grandes amigos, costumeiramente conversadores de dissabores e sabores, de certo que são conservadores dos melhores costumes, independem do meio o qual descendem, vivem ou convivem. Regina e Cruz são figuras sobre-humanas, e se amam, mas se de um lado humanos não podem ser, pelo menos ou mais, de outro lado são poderosos, têm estruturas antigas bem alicerçadas e alimentadas pela natureza da Terra, da Pedra, da Umidade. Seja lá o que for, para Cruz e Regina, no processar dos acontecimentos deve também prevalecer a Democracia não importando se a luta é terráquea, venusiana, mercuriana, plutoniana ou marciana, se é de Java ou da constelação de Orion.  

Regina se dirigindo ao Cruz não hesita em argumentar sobre os fatos – Diga-me Cruz sobre o que se passou agora recente com você, meu velho amigo.

Cruz, paciente como sempre responde – Regina, minha nobre, tu sabes muito bem que o meu maior tesouro é a admiração que guardo da população dos territórios aqui em torno...

– Sim, eu bem sei disso meu caro, responde Regina, deu pra todo mundo perceber isso agora recente, e, ela sabe, ela aqui, a Democracia sabe bem disso, não é? O que agora recente se passou não abalou as suas estruturas, Cruz!

– Sim, Regina, concorda Democracia, sei, sim, e graças à nossa união, colaboramos para impedir a manifestação de muita coisa possível de danificar a saúde dele e de todos os seus dependentes.

– Mas eu, diz Cruz, também dependo de todas e todos...

Regina não se contendo explana - Cruz, meu amigo, o mundo inteiro lhe respeita!

– Agora recente, diz Cruz, fui bem representado e defendido: a territorialidade, minha comunidade, a Legitimidade, a Democracia em pauta, tudo se somou em aspectos bem atuantes.

– Certamente sem isso, comenta Regina, a sociedade despenca para as profundezas de uma tragédia.

Terra que a tudo escuta, afirma – E eu não pensei duas vezes, Cruz, pois agora recente, a seu favor enviei vibrações abalando as bases pensantes para alertar as autoridades da Razão e do Bom Senso. Umidade percebeu bem isso...

Tão ligada que é ao manguezal às margens da Baia de Guanabara, Umidade grita – A fauna e flora do manguezal que o digam!

Terra motivada revela – Eu que o diga, também, com tantos reboliços sobre mim!

Pedra de ouvido em pé externa sua opinião – Umidade, Terra, vocês duas têm razão, até eu que não costumo me locomover pra nada, me animei no movimento, imagine o restante da natureza.

Confirmando as palavras de Pedra, Umidade com profundo sentimento diz – A emoção tomou conta do pedaço quando todo o povo do mangue juntado com a comunidade dos cientistas e tudo partiu pra defesa dos seus ideais, Cruz!

– Eu que também o diga, Cruz, fala Regina: guardando suas proporções e diferenças de ângulos, eu, no outro extremo da Baia de Guanabara, no alto do Morro Azul, tal qual você também, encravado no alto de Manguinhos, Cruz, também tenho a admiração dos que em torno de mim residem, apesar de que eles não dependem de mim tanto quanto os que o cercam, Cruz, visto que o seu dom e prática, desde os primórdios alcançam a cidade toda, cidade que certa vez assustada com a novidade do antídoto contra a varíola se revoltou, e, até os cadetes da Escola Militar dali da Praia Vermelha, no bairro da Urca se sublevaram contra as medidas baixadas pelo Governo Federal, que por você foi convencido sobre a necessidade da erradicação dessa peste mortífera.

– Sim, nobre amiga, relembra emocionado Cruz, foram dias difíceis, tempos em que as sombras persistiam em envolver meu sonho de ver a cidade iluminada de saúde, cheia de esperança...

Entusiasmada Terra exclama: – Legitimidade, Democracia, Saúde, Esperança... Maravilhosas lembranças!

Cruz prossegue – Lembro-me do tempo que ao olhar para as bandas de acolá, se via a igreja da Penha imperando linda sobre o casario. Ao olhar para o lado de cá, se via a Baia de Guanabara dando para sentir suas límpidas águas quase passando pelo meu portão principal, que ao olhar para Sul via com muita facilidade o Morro do Corcovado, que por sua vez, sabia da existência nítida dos Rios Faria Timbó e Jacaré passando garbosos pelo meu quintal, atravessando o manguezal: "berçário" natural para tantas e tantas espécies enriquecendo a Fauna e Flora...     

Após ouvirem este relato bucólico, Terra, Pedra e Umidade, de longevidade de outrora, idade que o próprio Cruz ainda haverá de alcançar, fortalecem seus laços divinos, e, sabendo da sagrada missão humanitária de Cruz, convidam Regina, Democracia, Legitimidade, Baia de Guanabara, Fauna e Flora, todo o Povo do Mangue e Comunidade Cientifica, Saúde, Esperança, toda Cidade do Rio de Janeiro, o Brasil e o Mundo inteiro para darem as mãos e abraçar Cruz, a fim de que o que se passou agora recente não mais se repita.
E disseram cantando:
O que passou/passou
Andou um passo
Mas no compasso da Razão e do Bom Senso
Se transformou
Não por consenso
Mas pela diversidade
Em equilíbrio trabalhando
Pela saúde e bem-estar universal

...e assim, Regina, sempre sabedora da humanidade do seu amado amigo Cruz reafirma que, o que agora recente se passou somente os alicerces do Castelo deixou ainda mais seguros.


Fim

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Pedra Fundamental do Parque Ecológico Nossa Senhora de Lourdes, Morro Azul

Em 11 de fevereiro de 2017, sábado, Dia de N. Sra. de Lourdes, não houve o assentamento da pedra fundamental do Parque Ecológico Nossa Senhora de Lourdes, Morro Azul por motivos técnicos, de modo que foi adiado para março deste ano.
Nesse local, no alto da pedreira será construída uma gruta em louvor à Nossa Senhora de Lourdes, padroeira do Morro Azul, cuja imagem ao lado foi introduzida na comunidade pelo patrono padre Paulo Riou em 1952. Antes desse fato, sabe-se que por falta de saneamento básico, chegava a falecer mais de duas crianças por semana no morro. As vibrações de Nossa Senhora iluminou a comunidade, animando moradoras e moradores, que juntos com o médico sanitarista doutor Luiz Lima e padre Paulo se lançaram em mutirões de limpeza, acabando com valas a céu aberto, varrendo os quintais, desentulhando o lixão... Com a fé acesa a comunidade viu cair a zero a mortalidade infantil, e, mesmo a diminuição também de adultos adoentados.

Endereço: Rua Paulo Sexto, 480, Morro Azul, Flamengo, Rio de Janeiro, RJ
Horário: 18:00 horas